Jussara Silveira e Sylvia Patricia vibram e se afinam na pulsão poética da música de Waly Salomão porque a vida é sonho

  • 18/03/2026
(Foto: Reprodução)
Jussara Silveira (à esquerda) e Sylvia Patricia estreiam no Rio de Janeiro o show em que cantam a obra musical do poeta Waly Salomão (1943 – 2003) Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Balada de um vagabundo – A música de Waly Salomão Artistas: Jussara Silveira e Sylvia Patricia Data e local: 17 de março de 2026 no Manouche (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ 1/2 ♬ “A vida é sonho, a vida é sonho, a vida é sonho...”. Reverberando o mote da obra mais famosa do poeta espanhol Calderón de la Barca (1600 – 1681), a voz de Waly Salomão (3 de setembro de 1943 – 5 de maio de 2003) ecoou no palco do clube Manouche, através de imagem projetada no telão, ao fim do show em que Jussara Silveira e Sylvia Patricia deram vozes à obra musical do poeta e compositor baiano, morto há 23 anos. Dois anos após ter estreado em Salvador (BA), o show “Balada de um vagabundo – A música de Waly Salomão” (2024) chegou à cidade do Rio de Janeiro (RJ) na noite de ontem, 17 de março, realizando sonho da pequena plateia de amigos e admiradores das cantoras. Artista multimídia de alma efervescente que legou cancioneiro composto com parceiros do naipe de Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé (1943 – 2025), João Bosco e Lulu Santos, Waly Salomão teve a vida cheia de som e fúria poética. Em cena, sob direção musical do guitarrista e arranjador Alex Mesquita, Jussara e Sylvia vibraram e se afinaram nessa pulsão poética que gerou músicas como “Vapor barato” (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971), repetida pelas cantoras no bis, em levada de reggae que remeteu à gravação feita pelo grupo Rappa há 30 anos no álbum “Rappa mundi” (1996). Antes, Jussara e Sylvia tinha cantado “Vapor barato” em clima evocativo do registro emblemático de Gal Costa (1945 – 2022) em 1971. Nesse número, foto cedida por Thereza Eugenia e estampada no telão mostrou Gal ao lado de Waly Salomão. A imagem marcou e fez todo o sentido em cena, pois as presenças de Gal Costa e Maria Bethânia pairaram no ar ao longo do show de pouco mais de uma hora porque Gal e Bethânia se impuseram como as principais intérpretes da obra musical do poeta. Essa obra foi valorizada pelos arranjos tocados pela percussionista Lan Lanh (sempre uma presença especial em cena), pelo baixista Alexandre Vieira – evidenciado no suingue que bombeia “Memória da pele” (João Bosco e Waly Salomão, 1989) – e pelo supracitado guitarrista Alex Mesquita. Desde a primeira música do show, “Negra melodia” (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971), ficou evidente o balanço sedutor da banda de origem baiana, como sublinhou Jussara Silveira, também ela baiana de criação e espírito, ainda que nascida em município do interior do estado de Minas Gerais. Como Sylvia Patricia é legítima baiana nascida em Salvador (BA), estava todo mundo em casa. A vibração das cantoras, a potência dos arranjos, a exibição das projeções (com imagens de Waly cedidas pelo filho do poeta, Omar Salomão) e o toque sempre azeitado da banda valorizaram o show, mas não disfarçaram o fato de que, às vezes, o compositor parceiro de Waly não acompanhou a pulsão do poeta na criação da melodia. Exemplo foi “Dono do pedaço”, número que transcorreu sem poder de sedução pela música insípida de Gilberto Gil, gravada por Gil no álbum “Extra” (1983) – titulo da fase pop da discografia do cantor – e sintomaticamente nunca regravada desde então. Adriana Calcanhotto tampouco brilhou ao musicar postumamente versos de Waly na composição “Motivos reais banais” (2014). Em contrapartida, Caetano Veloso e Jards Macalé quase sempre valorizaram musicalmente a poesia imagética de Waly Salomão. Da parceria de Waly com Macalé, fundamental na era da contracultura da década de 1970, Jussara e Sylvia cantaram “Mal secreto” (1970) em número que conciliou vibe roqueira e atmosfera bluesy. No verso “Vejo o Rio de Janeiro”, as intérpretes abriram os braços em sincronia com a exibição da imagem do Cristo Redentor no telão. O gesto resultou significativo porque, embora baiano, foi no Rio de Janeiro (RJ) que Waly Salomão floresceu como poeta. Dominante no roteiro, a parceria de Caetano Veloso com Waly Salomão rendeu números como “A voz de uma pessoa vitoriosa” (1978) e “Alteza”, solos de Sylvia Patricia e Jussara Silveira, respectivamente. “Cobra coral” (2000) se enroscou no ouvinte com as vozes das cantoras em uníssono. Já “Mel” (1979) derramou empatia, com o público fazendo coro com as artistas, enquanto o samba “Da gema” (1984) reluziu como pérola rara que precisa sair da ostra. Também pouco conhecido, o rock “Grafitti” (1984) – composto por Caetano com versos da primeira letra assinada por Waly com Antonio Cicero (1945 – 2025), outro poeta relevante da música brasileira – se enquadrou com menor naturalidade na moldura do show “Balada de um vagabundo”, cuja música-título – lançada em 1985 no primeiro álbum solo de Cazuza (1958 – 1990) – foi outro exemplo de que nem sempre o parceiro de Waly (no caso, Roberto Frejat) acompanhou o ímpeto dos versos do poeta. Lulu Santos foi bem mais certeiro e feliz ao musicar os versos de “Assaltaram a gramática” (1984), número de grande empatia com o público, assim como “Natureza humana” (1984), versão em português de “Human nature” (Steven Porcaro e John Bettis, 1982), um dos sucessos do álbum “Thriller” (1982), título blockbuster da discografia solo do cantor e compositor norte-americano Michael Jackson (1958 – 2009). Detalhe: “Natureza humana” é a única letra escrita por Waly com o irmão Jorge Salomão (1946 – 2020), também poeta e letrista. Mesmo sem jamais ter se rendido ao tatibitate da música do mainstream, Waly Salomão também soube ser pop, ainda que os versos do poeta tenham encontrado em Caetano Veloso e em Jards Macalé a mais completa tradução musical longe da esfera pop. São essas duas parcerias musicais de Waly Salomão que nutrem o show de Jussara Silveira e Sylvia Patricia. Na obra musical de Waly Salomão, a melodia do parceiro pode vez por outra até definhar, mas o pulso dos versos jamais fraqueja e é nessa pulsão que, cientes de que a vida é sonho e poesia, Jussara Silveira e Sylvia Patricia se agarram para manter a força do show.

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/03/18/jussara-silveira-e-sylvia-patricia-vibram-e-se-afinam-na-pulsao-poetica-da-musica-de-waly-salomao-porque-a-vida-e-sonho.ghtml


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