Emanuelle Araújo mergulha na vivência como cantora de música afro-baiana no terceiro álbum solo, 'Corra para o mar'
02/04/2026
(Foto: Reprodução) Emanuelle Araújo lança em 10 de abril o terceiro álbum solo, 'Corra para o mar', gravado com produção musical de Alexandre Kassin
Mari França / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Corra para o mar
Artista: Emanuelle Araújo
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ “Nosso bloco já passou e essa manhã cai bem”, avaliam Emanuelle Araújo e Davi Moraes na levada macia de “Cai bem”, música assentada sobre os tambores afro-baianos que sustentam o terceiro álbum solo da artista, “Corra para o mar”.
Ambientada em um fim de Carnaval, mas sem melancolia, “Cai bem” é a música que encerra com leveza “Corra para o mar”, álbum gravado com produção musical de Alexandre Kassin e programado para ser lançado em 10 de abril, quase dois anos após a edição do primeiro single, apresentado em 28 de junho de 2024 com a gravação da música “Vá na paz do Senhor” (Leonardo Reis e Deco Simões).
Lançar em abril um álbum calcado na música de festa da Bahia – trilha sonora de espírito folião, criada com alta carga de ancestralidade afro-brasileira – é como promover um Carnaval fora de época. SQN.
“Tu já viu um dia triste no baiano? / Tem não, tem não, Carnaval é todo dia / Não é uma semana no ano”, sentenciam Emanuelle e Tatau em versos de “Não fique triste” (2025), música de Emanuelle Araújo, Tatau e Xixinho assentada sobre o baticum característico do samba-reggae. A faixa foi antecipada em 30 de janeiro do ano passado, como terceiro single do álbum, com o título de “Tem não”.
Emanuelle Araújo sabe o que canta. Cantora e compositora nascida em Salvador (BA) em julho de 1976, a artista entrou em cena em 1989 como apresentadora de TV e atriz de teatro. A projeção como cantora veio uma década depois, em 1999, com a escolha da Emanuelle para substituir Ivete Sangalo no posto de vocalista da Banda Eva, na qual permaneceu até 2002.
O álbum “Corra para o mar” reaviva essa fase da carreira da artista, dando legitimidade à regravação de “Minha história” (Alfredo de Souza Cerqueira Filho, o Xexéu, e Luizinho SP), composição apresentada há 30 anos pela banda baiana Timbalada no álbum “Mineral” (1996), lançado no período áureo do som rotulado como axé music.
O revival de “Minha história” entrou em rotação em novembro de 2024 como segundo single do álbum preparado há três anos por Emanuelle. A rigor, por conta de tantos singles, o álbum “Corra para o mar” chega ao mercado já com baixo teor de novidade, pois somente cinco das dez faixas permaneciam inéditas.
Lançada em 6 de fevereiro como aposta de Emanuelle Araújo para o Carnaval de 2026, “Beija a minha boca” é música de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães formatada por Kassin no universo típico da axé music.
Emanuelle Araújo regrava 'Ijexá' (1982), música do último álbum de Clara Nunes (1942 – 1983), e faz feat com Davi Moraes na música 'Cai bem'
Mari França / Divulgação
Aliás, o álbum “Corra para o mar” chega impregnado da energia do axé e da força dos tambores da Bahia que embasam faixas como “Pescar” – ijexá com letra de versos imagéticos – e “Iansa bale”, faixa que pisa nos sagrados terreiros do Candomblé com o toque do grupo baiano de percussão Aguidavi do Jêje, repleto de negritude e ancestralidade.
Essa ancestralidade também pauta “Cadência nobre” (Tenilson Del Rey e Edu Casanova, 2025), faixa permeada pelo mix de cordas com percussão e valorizada pela presença do Ilê Aiyê. Lançada em single em abril do ano passado, a música faz ode à força negra feminina e a esse bloco afro que simboliza as mais nobres tradições da música da Bahia.
Dentro desse universo afro-brasileiro que rege a Bahia de todos os santos e orixás, faz todo sentido a regravação de “Ijexá (Filhos de Ghandi)” (1982), música de Edil Pacheco, apresentada por Clara Nunes (1942 – 1983) – cantora interpretada por Emanuelle em 2025 em musical de teatro dirigido por Jorge Farjalla – em gravação luminosa feita para o álbum “Nação” (1982), o último de Clara. Com força soprada pelos metais, o registro de “Ijexá (Filhos de Ghandi)” por Emanuelle é muito bonito e tem o mérito de reapresentar a música para as atuais gerações.
O álbum “Corra para o mar” também chega banhado pelas águas, com algumas letras nessa praia. Parceria de Emanuelle com o letrista e poeta baiano José Carlos Capinan, a música-título “Corra para o mar” segue sedutora, em correnteza macia, receitando a força das águas e dos ventos como antídotos para mágoas.
É curioso constatar que o álbum “Corra para o mar” dialoga pouco com os dois álbuns anteriores da discografia solo de Emanuelle Aráujo, “O problema é a velocidade” (2016) e “Quero viver sem grilo – Uma viagem a Jards Macalé”, embora Kassin também tenha produzido o primeiro, lançado há dez anos.
A bem da verdade, os três discos da artista pouco ou nada têm a ver entre si. E, diante desse painel, cabe ressaltar que “Corra para o mar” é o álbum que mais bem se ajusta ao canto, à história e à vivência de Emanuelle Araújo.
Capa do álbum 'Corra para o mar', de Emanuelle Araújo
Mari França / Divulgação