'A bola preta', cotado ao Oscar, discute questões de identidade de forma épica e ousada; g1 já viu

  • 06/10/2026
(Foto: Reprodução)
"A bola preta", produção da Espanha destaque do Festival de Cannes, tem uma proposta audaciosa: discutir questões que envolvem a identidade e a sexualidade em três períodos históricos distintos. O resultado é uma obra poderosa, com imagens marcantes. O longa abriu o Festival do Rio 2026 e só deve estrear no Brasil em janeiro de 2027. Até lá, deve se tornar um dos grandes filmes da temporada por conseguir misturar drama de guerra e temática LGBTQIA+ de forma bastante emotiva. A trama tem três diferentes épocas em que vivem os protagonistas: Alberto (Carlos González) em 2017; seu avô Sebastian (Álvaro Lafuente Calvo), em 1937 e Carlos (Milo Quifes), em 1932. Em cada uma delas, os personagens lidam com situações que os levam a questionar seus lugares no mundo. Assista ao trailer do filme "A bola preta" A partir de uma série de anotações que Sebastian deixa para Alberto após sua morte, o rapaz, que não tinha uma grande relação com o avô, decide descobrir o que aconteceu com ele. Acaba tendo conhecimento do que houve nos anos 1930, quando a Espanha estava vivia tempos difíceis com uma série de conflitos que culminaram com a Guerra Civil Espanhola. À medida que a investigação avança, Alberto repensa as razões que o levaram a deixar sua carreira de dramaturgo. Batalhas e sentimentos O que impressiona em "A bola preta" é o vigor da direção do filme, assinada pela dupla Javier Calvo e Javier Ambrossi. Os cineastas mostram um cuidado estético impecável. Assim, cenas de batalha convivem bem com momentos mais íntimos e sentimentais, sem jamais causar estranheza. Guitarricadelafuente e Miguel Bernardeau protagonizam o drama 'A bola preta', de Javier Calvo e Javier Ambrossi Divulgação A força da trama está em como ela constrói a empatia do público em meio ao caos. O grande destaque fica para o arco de Sebastian, um jovem forçado a integrar um exército fascista durante a Guerra Civil. A rotina militar muda quando ele recebe a missão de vigiar um prisioneiro importante para os oficiais. A relação entre o guarda e o cativo, interpretado por Miguel Bernardeau, ganha intensidade aos poucos. O envolvimento gradativo faz com que Sebastian viva um conflito interno, lutando para esconder o que sente enquanto tenta proteger a própria vida e a do novo parceiro. É o tipo de dinâmica que cria uma cumplicidade imediata, fazendo quem assiste torcer para que o afeto sobreviva à brutalidade da guerra. Ao mesmo tempo, o roteiro corre em uma via paralela com a história de Carlos. O objetivo dele é ser aceito em um clube restrito de homens poderosos. A rejeição, no entanto, vem de forma dura. Ele é barrado por sua sexualidade em um tradicional sistema de votação que usa bolas pretas, detalhe que explica a origem do título do filme. Em vez de recuar, Carlos insiste em tentar de novo. Essa jornada por reconhecimento, batendo de frente com a exclusão por ser considerado "diferente", entrega a carga dramática e comovente que sustenta a outra metade do longa. Carlos (Milo Quifes) luta para ser aceito numa sociedade de homens influentes em 'A bola preta' Divulgação Para equilibrar o peso das cenas de guerra e do drama, os momentos musicais merecem destaque. As sequências são bem coreografadas e entregam uma energia que contagia rápido. Quem é fã do formato vai sair no lucro com o resultado final. O problema é que o longa escorrega na própria ambição. Passada a metade da história, a trama perde a objetividade e pisa no freio para tentar amarrar as pontas soltas. A intenção de não deixar nada sem explicação até se justifica. O erro dos diretores, que também assinam o roteiro baseado na peça de Alberto Conejero, é andar em círculos. Isso derruba boa parte do impacto construído lá no começo. Essa quebra de velocidade cobra um preço alto e testa o interesse de quem assiste. Com exagerados 155 minutos de duração, a experiência fica cansativa. A sensação é de que o relógio para de andar caso você desengate da tela. É um tropeço frustrante para uma obra que começou de forma tão instigante. Penélope Cruz é um dos grandes destaques de 'A bola preta', de Javier Calvo e Javier Ambrossi Divulgação Participações muito especiais O elenco de A bola preta é outro ponto de apoio forte. A linha de frente conta com Guitarricadelafuente (que também assina a música tema do filme), Milo Quifes e Carlos González. Mas o brilho maior fica por conta de duas estrelas em participações especiais que mudam o peso da história. Penélope Cruz toma conta da tela no papel de Nené Romero, uma atriz e cantora enviada para animar as tropas espanholas no front. Além de cantar e dançar em ótimas sequências musicais, ela ajuda Sebastian a lidar com a própria identidade em um ambiente militar sufocante e cheio de preconceitos. A entrega de Penélope é cheia de nuances e garante as cenas mais marcantes da produção. Glenn Close é outro destaque no papel de Isabelle Durand, uma acadêmica especialista em literatura espanhola. A função dela é guiar Alberto pelas entrelinhas do legado deixado pelo avô. A atriz se arrisca no espanhol em alguns diálogos e acerta o tom da emoção enquanto as peças do quebra-cabeça se juntam para o protagonista. O único lamento é o tempo de tela reduzido, já que a presença dela eleva o nível do projeto de forma indiscutível. Carlos González e Glenn Close numa cena de 'A bola preta', de Javier Calvo e Javier Ambrossi Divulgação Com a chancela de Pedro Almodóvar na produção e fôlego inspirado na obra de Federico García Lorca (interpretado por Alberto Cortés no longa), "A bola preta" justifica o barulho positivo que faz desde a estreia no Festival de Cannes. O peso é tanto que o filme foi o escolhido para representar a Espanha na corrida por uma indicação de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. O grande acerto do projeto é chocar a sensibilidade aflorada dos personagens com a realidade dura que os cerca. É o tipo de contraste que bate forte no público e tem tudo para colocar a história na prateleira dos lançamentos mais marcantes de 2026. Cartela resenha crítica g1 Arte/g1

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/g1-ja-viu/noticia/2026/10/06/a-bola-preta-cotado-ao-oscar-discute-questoes-de-identidade-de-forma-epica-e-ousada-g1-ja-viu.ghtml


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